Como descobri, tratei e “sarei” da neuropatia fibular

Em 17 de outubro de 2007, indo pra academia, percebi que meu pé esquerdo estava estranho. Depois de uns dias sentido que ele estava sem força e tropeçando pelas ruas, procurei um médico e descobri que estava com uma doença chamada neuropatia fibular no pé esquerdo.

Durante uns dois anos, passei por vários médicos, um monte de exames e remédios, infinitas sessões de fisioterapia e até uma botinha ortopédica. Hoje, recuperei uns 90% do movimento e vivo muito bem com meu pezinho. Recentemente, até consegui participar da minha primeira corrida (5K)!

Eu descrevi todo o processo no meu blog antigo e, vira e mexe, umas pessoas que estão passando pelo mesmo problema me encontram no Google e, como parei de atualizar aquele blog, me procuram para saber no que que deu.

Sei bem que um dos maiores problemas dessa doença é a falta de informação e a dificuldade de diagnóstico.

Então, este post é para contar toda a saga e, quem sabe, ajudar você aí, do pé caído, a melhorar.

Diagnóstico

Um dia, fui para a academia de manhã e, quando fui me alongar, senti o pé esquerdo meio pesado, meio esquisito. Eu estava com dificuldade para levantar o peito do pé, enquanto estava de pé. Sentada, não tinha esse problema.

Eu não tinha tido nenhum tipo de trauma (batida), nem dado mal-jeito, nem desmaiado, nem bebido demais e dormido em cima do pé (hipóteses levantadas pelo médico mais tarde). Até hoje, não sei o que me causou. Pode ter sido durante meus treinos de corrida ou as aulas de ioga, pode não ter sido nada disso. O médico nunca chegou a uma conclusão. Mas, apesar da curiosidade, isso nunca importou muito.

Passados uns dias, o problema continuou e procurei um médico. Ele tirou raio-x e fez outros exames no consultório mesmo, mas não achou nada. Aí me pediu um exame chamado eletroneuromiografia.

Eletroneuromiografia é um exame que mede a atividade e a reação dos músculos e nervos de determinada área do corpo através de estímulos elétricos (choques) e tem o objetivo de descobrir se o problema é nos músculos ou nervos (ou nos dois).

No meu caso, o médico avaliou as duas pernas (pra comparar). Ele marcou com caneta Bic alguns pontos estratégicos e ia colocando uma espécie de caneta com ponta de metal no ponto e dando choquinhos de intensidades diferentes – isso era para os nervos. Depois, com uma agulha, espetou outros pontinhos e deu mais choquinhos, enquanto me mandava fazer algum movimento (tipo dobrar a perna ou um dedo do pé) – isso foi para os músculos.

É super desconfortável e cheguei a chorar na primeira vez. Mas se você vai sabendo que é dolorido, é melhor. Minha terceira eletroneuro (sim, foram três…) foi bem melhor.

O resultado desse exame mostrou que meus músculos estavam bem, mas um nervo lá, não. Era o nervo fibular, uma ramificação do ciático que passa pela lateral do joelho, continua pela frente da canela e controla o movimento de puxar o peito do pé para cima. Como esse nervo não estava mandando o estímulo para o músculo correspondente, o músculo estava inativo também, mas não havia nada de errado com ele. Era como se tivesse fora da tomada.

Para entender o que estava comprometendo esse nervo e se era compressão, estiramento ou rompimento, o médico me pediu uma ressonância magnética da perna.

Ressonância magnética é tipo um raio xis mais elaboradão. Tem uma máquina grandona com um furo no meio, por onde passa uma maca com você deitada. Faz um mapeamento do seu corpo tipo um scanner. Ele gera imagens em cortes horizontais e verticais, e scanneia cada pedacinho da parte do corpo que o médico quer investigar. No meu caso, a perna esquerda.





Por ser bem minuncioso, o exame é meio demorado. Fiquei 30 minutos na maca. É um pouco desconfortável porque não pode se mexer nem um pouquinho, pra não embaçar a imagem (pense em uma foto que leva 30 minutos pra ser tirada) e ter que começar do zero. Além disso, a sala é gelada (acho que pra não superaquecer o aparelho), e a gente tem que usar aquelas roupinhas de hospital. Mas, na clínica onde fiz, os mocinhos me colocaram um cobertor.

Voltei pro médico e ele identificou uma inflamação na área do nervo fibular que passa bem do lado do joelho. Não dava para saber se era um rompimento, um estiramento ou um corpo estranho (como um tumor) comprimindo aquela área, e os exames não ajudaram a identificar.

Quando chegamos nessa encruzilhada, este primeiro médico me recomendou ficar em observação, sem tomar remédios nem fazer tratamento, por não termos certeza do que estava acontecendo.

Enquanto isso, em dezembro, me receitou o uso de uma órtese chamada goteira. É uma espécie de bota ortopédica que ajuda a manter o pé a 90º do chão, evitando que a gente tropece e que o pé fique doendo do esforço (quando um músculo não trabalha direito, os outros tentam compensar e ficam fadigados).

Aparelho ortopédico goteira
Goteira por cima da calça, vista de cima.

A goteira tem uma espécie de tala que se acopla à parte da batata da perna e prende com um velcro na frente. A tala também se encaixa na planta do pé. A órtese é encaixada dentro do tênis e, por incrível que pareça, é bem confortável.

Minha mãe, pessoa vivida, insistiu pra gente procurar uma segunda opinião e não ficar parada em observação. Mal não faria…

Só que troquei de convênio nesse meio tempo e fiquei um mês sem ir ao médico, esperando dar a carência.

Hoje vejo que isso foi um erro. Tempo é uma coisa muito preciosa em casos de nervos em degeneração. O nervo se degenera em uma velocidade muitíssimo mais alta do que a de sua recuperação e esses 30 dias parada só fizeram o problema se aprofundar. Quanto mais cedo você tratar um nervo em degeneração, maiores as chances de uma cura completa e menos tempo de tratamento você terá.

Um dado importante: o corpo da gente leva 1 mês para refazer 1 milímetro de nervo.





Tratamento

Enfim, carência cumprida e, por volta de 11 de fevereiro de 2008, marquei logo dois médicos e ambos me disseram que era um absurdo eu estar há quase três meses investigando o problema sem tratar. Os dois me receitaram a mesma coisa: fisioterapia com estímulo elétrico (mais choques), corticóides e vitamina B12. Gastei uns R$ 200 contos na farmácia.

Corticóides são antinflamatórios mega fortes. O objetivo era diminuir a inflamação na região afetada do meu nervo fibular. O nome era Dexa-Citoneurin, é injetável e meio ardido na aplicação.

Cada caixinha tinha três ampolas com um líquido vermelho e três com um branco. Em cada aplicação, se aplicam a mistura das duas. Parece besteira dizer isso, mas a primeira vez que tomei, a farmacêutica errou e aplicou só uma ampola (logo a mais fraca…). Tive que reiniciar o tratamento… As aplicações tinham que ter um ou dois dias de intervalo, não lembro. É normal fazer xixi vermelho depois da injeção.

Ao todo, durante o tratamento, tomei 12 doses desse corticóide. Apesar do que dizem sobre corticóides fazerem a gente engordar horrores, não engordei muito. Em um ano, devo ter ganhado uns dois ou três quilos, mas devemos considerar que eu parei de fazer academia e gosto de comidas gordas, então acho que não foram os corticóides.

O lado negativo dos corticóides é que, por diminuir inflamações do corpo todo, podem mascar os sintomas de alguma infecção e, depois de tratar da neuropatia, você talvez descubra que está com algum outro problema (como infecção ginecológica) e não sabia. Mas, enfim, um problema de cada vez, não é?

Já a vitamina B12 era para o músculo que, por falta do estímulo do nervo, estava inativo há muito tempo e, mesmo que não tivesse nada errado com ele, músculos inativos acabam atrofiando. A vitamina ajudaria o músculo a não enfraquecer.

A fisioterapia tinha dois objetivos. O primeiro era exercitar o músculo parado, para não atrofiar, e tentar “despertar” o nervo através dos estímulos.

Os médicos também pediram um novo eletroneuromiografia, para ver quanto tinha evoluído a área afetada do nervo desde o último exame (uns dois meses) e avaliar a velocidade da degeneração. Fiz a segunda eletroneuro no dia 27 de fevereiro. Dessa vez, foi muito melhor que a primeira. Fiz no laboratório Lavoisier, do shopping Interlagos (em São Paulo). Apesar de ser muito cheio, o médico foi muito compreensivo e cuidadoso, e até deixou meu marido me acompanhar (eu fiquei realmente traumatizada da primeira vez), o que tornou o exame menos pior.

Não me lembro exatamente quando, mas visitei outros médicos até chegar àquele que me acompanhou até o final do tratamento: doutor Hitoshi Matsudaira, que atende na Clínica Pinheiros (em São Paulo). Ele é especialista em cirurgia da mão (que, dizem os médicos, tem uma estrutura de nervos e músculos muito semelhante à do pé, então podemos dizer que ele manja muito de pé também) e é um cara muito calmo, o que é sempre bom numa situação dessas. Ele foi o primeiro médico a dizer que era besteira continuar investigando a causa do problema e que deveríamos concentrar esforços em tratar o problema. Sou muito grata a ele.

Comecei a fisioterapia no dia 18 de março de 2008, depois de muito procurar clínicas, datas e horários compatíveis. Fiz no Instituto Ortopédico Campo Belo (IOCB), em São Paulo.





O médico receitou 10 sessões de fisioterapia com estímulo elétrico (ou eletroestimulação). A fisioterapeuta coloca eletrodos na perna em pedaços estratégicos (que ela acha depois de testar muito) e liga o FESS – o aparelho responsável pelos choques.

Os nervos estimulados faziam com que o pé puxasse para a esquerda e o dedão se dobrasse durante alguns segundos, depois parava por um tempinho e recomeçava. No começo é ruim, mas depois dá para acostumar… Perto da eletroneuromiografia, foi quase uma cócega.

A cada choquinho, eu tinha que forçar aquele mesmo movimento, para treinar o nervo. No começo, parecia que não tinha efeito nenhum, mas, depois, deu pra ver que estava retomando a força aos poucos, como que reaprendendo o movimento.

Fiz até um vídeo pra vocês verem como é (se não aparecer o player logo abaixo, aqui vai o link: fisioterapia com estímulo elétrico).

Terminadas as 10 primeiras sessões de fisio, voltei ao médico, que avaliou o resultado e me receitou mais 30 sessões. Quando acabou, voltei lá e peguei receita pra mais 30 e assim foi por muito tempo.

O tratamento da neuropatia é longo e cansativo, e é comum a gente ficar desanimado. Demora um tempão para dar resultado! A gente precisa ter paciência e perseverança.

Não me lembro exatamente até quando fiz a fisioterapia, mas foi entre 10 meses e um ano. No fim de 2008 eu já estava praticamente recuperada.

Entre novembro e dezembro, tive um formigamento na mão esquerda, com diminuição da sensibilidade nas pontas dos dedos. Ficamos preocupados que pudesse ter a ver com o pé – o que seria um sinal de que o problema era neurológico, ou seja, no sistema nervoso central, na cabeça, e isso seria um problema muito mais sério. Fiz uma nova eletroneuromiografia, desta vez nas mãos, e o resultado mostrou um enfraquecimento de um nervo da mão. Tomei mais uma caixa de corticóide (três doses), e passou. Graças a Deus não v0ltou, e concluímos que uma coisa não tinha a ver com a outra. Foi só um susto.

“Cura”

Usei a goteira por um ano e dois meses. Usei no dia a dia e também em festas como minha formatura. Não tem motivo pra gente querer esconder essas coisas, né? Como ela não encaixava em nenhum sapato de festa, usei com aquele sapatinho Moleca, de pano, molinho. Quebrou o galho.

Tirei a goteira no dia do meu casamento, em 7 de fevereiro de 2009, e nunca mais voltei a usá-la. Quem diria que era verdade o ditado “quando casar, sara”? :p





Ainda em 2009, fiz natação durante alguns meses, para ajudar a fortalecer o músculo do pé sem riscos de contusão. No início de 2010, mais de dois anos depois, o médico me deu alta oficialmente e me liberou, inclusive, para fazer academia.

Digo que me recuperi 90% porque meu pé não é o mesmo, mas está muito bem. Hoje, consigo caminhar normalmente, dirigir, andar de salto alto e tudo mais. Inclusive, recentemente (2016), consegui participar da minha primeira prova de corrida, o que não foi fácil e teve consequências, mas foi possível e fiquei muito feliz!

Espero que este post seja útil a quem estiver passando por situação parecida e recomendo muita paciência!