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Consciência negra: somos todas Charô Nunes.

Quem é Charô Nunes?

(Read this post in English here: Who is Charô Nunes?).

Acabo de ler esta pergunta no blog de um mulatólogo (profissional especializado em casting de passistas negras para eventos como “show de mulatas”). Ele se sentiu ofendido quando, em seu blog Blogueiras Negras, Charô afirma que “mulatologia” não é profissão, e sim machismo, com forte ranço escravagista.

Charô Nunes é uma das pessoas que me ensinou o que é racismo, e como combatê-lo. Conheci Charô, em carne e osso, em encontros de blogueiras. Ao contrário do que sugere o post, não há nada de obscuro em Charô. Trata-se de uma mulher linda, simpática, eloquente, que vive como qualquer uma de nós, com suas alegrias e dificuldades pela caminho, sempre em busca de uma vida plena e livre de ódio e preconceito.

Mas isso não importa, porque a resposta para essa pergunta é: somos todas Charô Nunes.

Cada menina negra que Continue lendo

Ator Kaiky Gonzaga e seu cabelo black power na novela Amor à Vida de Walcyr Carrasco.

Dia da Consciência Negra: o racismo velado em números e links

Hoje é celebrado o Dia da Consciência Negra. O feriado é recente – entrou em vigor em 2003, quando a lei 10.639 de 9 de janeiro daquele ano incluiu no currículo oficial da Rede de Ensino “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”.

Se você é uma dessas pessoas que postou algo no Facebook do tipo “no dia em que a gente parar de se preocupar com a consciência negra ou branca e se preocupar com a consciência humana, aí sim acaba o preconceito”, gostaria de ser a primeira a te dizer que você está redondamente enganado. Ignorar o racismo não vai, jamais, acabar com ele.

Tem gente que diz que não tem necessidade, que o maior preconceituoso é o próprio negro, que ficar falando sobre isso é exatamente o que causa essa segregação entre negros e brancos.

Mas a verdade é que não é preciso ser nenhum cientista social para olhar em volta e ver que faltam negros nos empregos qualificados e em posições de liderança nas empresas, nas boas escolas primárias, nas faculdades, nos bairros “nobres”, enquanto eles são a grande maioria nos transportes públicos lotados, nos empregos com menor salário, nas favelas, nas prisões, nos necrotérios das periferias.

Ainda que metade da população brasileira seja negra ou parda (dados de 2012), não há negros nas capas das revistas – das de beleza às de bebês, com exceção as publicações com temática especificamente negra. Os comerciais de TV não mostram negros como modelo de beleza nem dirigindo carrões, mas os colocam bastante no papel de criminosos. As passarelas das nossas fashion weeks tupiniquins não tem nem 10% de negros nem negras, mas tem modelos de bombril no cabelo para “homenagear a beleza negra”.

As pessoas ainda associam crianças negras em lojas caras a pedintes e chamam de “mal entendido”, ainda acham que não tem problema chamar cabelo crespo de “cabelo ruim“, mandam cortar o black power do menino negro da novela porque, depois que foi adotado por um casal (branco) e rico, o cabelo crespo ao natural “não combina”.

Datas de afirmação, como o 20 de novembro, tem como objetivo trazer o assunto à tona, revelar o preconceito velado, gerar discussões sobre como combater o problema e promover o fortalecimento da autoestima do grupo discriminado.

Então, meus caros, dizer que o Dia da Consciência Negra é desnecessário é feio, muito feio, e ignorante também.

Ainda mais quando você é como eu: uma pessoa branca, que nunca teve um apelido racista na escola, que jamais sofreu nenhuma dificuldade por conta da cor da pele na hora de procurar um emprego, que nunca teve dificuldade em encontrar padrões de beleza nos quais se espelhar na TV e nas bancas, que não sabe o que é tomar batida policial a troco de nada, por ter cara “suspeita”. Alguém que não tem a menor idéia do que é precisar de um feriado nacional para que o assunto seja notícia e gere discussões.

O que a gente deve fazer nesse dia é assumir que existe um problema chamado racismo, que ainda há muito que caminhar para alcançar a igualdade racial no Brasil, de refletir sobre nossa participação nesse problema (por mais que a gente jure que não seja racista, a verdade é que somos preconceituosos em recuperação), pensar sobre como podemos combatê-lo. É dia de a gente questionar as marcas, as revistas, as novelas e exigir que os negros não sejam colocados de lado quando falamos em modelos de beleza e de sucesso. De perceber em quais ações do dia a dia a gente ajuda o racismo a crescer, seja discriminando pessoas negras ou dizendo isso tudo é coisa da cabeça delas, que estão exagerando e que o mundo está ficando muito chato.

Aqui vão alguns fatos interessantes que descobri pesquisando para este post, que podem enriquecer a conversa:

Revistas e blogs
– A revista Pais e Filhos não teve absolutamente nenhuma criança negra na capa da revista em 3 anos, em nenhuma das suas 35 edições que publicou entre janeiro de 2011 a novembro de 2013 (segundo a seção “edições anteriores da Revista Pais e Filhos” de seu site). Sua concorrente, a revista Crescer, teve uma única capa com um bebê negro em 19 edições.

Nos últimos 8 anos, a Revista Nova publicou apenas 4 capas com mulheres negras (4,2% das 95 capas publicadas de janeiro de 2006 a novembro de 2013, veja todas as edições de Nova deste período e confira).

– A Boa Forma, referência em corpos “perfeitos”, teve 1 única capa com mulher negra em 3 anos (menos de 3% das 37 edições publicadas entre janeiro de 2011 e novembro de 2013, conforme histórico disponível de capas.

Nenhuma blogueira negra integra a lista de blogs da F*Hits, uma das redes que somam a maior parte da audiência de (e do investimento publicitário em) blogs de moda e beleza do Brasil.

Nas passarelas e vitrines
– São raros os negros nas semanas de moda mais importantes do Brasil. Neste ano, a situação crítica levou a Defensoria Pública a criar uma cota de um mínimo de 10% de modelos negros e indígeneas nos desfiles Rio Fashion Week.

– Já no paulistano SPFW, foi dado um passo para trás: as cotas, criadas em 2009, foram desfeitas em 2012, porque “dava muito trabalho” para a organização enviar à defensoria evidências de quantos modelos negros participaram. Na época, o UOL fez um levantamento da quantidade de negros nas passarelas – números tão pífios pelo tamanho do evento que chega a ser uma vergonha.

Não se vê tampouco homens e mulheres negros nos sites e materiais publicitários de marcas consideradas brasileiríssimas, como as carioca Farm e Osklen.

Tratamento para a cura do preconceito

Broche: "eu sou um preconceituoso em recuperação"

É super constrangedor quando a gente percebe que somos pessoas preconceituosas.

Geralmente, a gente fala algo preconceituoso sem perceber e alguém aponta nosso preconceito. Pode acontecer a qualquer momento: na mesa do bar, quando você soltou uma piadinha “inocente” e ofendeu um amigo, no jantar de Natal quando soltou uma besteira sobre a polêmica da semana e recebeu uma bronca do seu tio, num post que você publicou no seu blog e gerou uma onda de revolta, assistindo um programa de TV em que um entrevistado conta como pessoas exatamente como você transformam a vida dele num inferno.

A vergonha toma conta, a gente começa a querer se justificar, dizer que não teve a intenção, que foi criado assim, quer cavar um buraco no chão pra enfiar a cabeça e torce pra que todo mundo esqueça logo do que aconteceu…

Mas calma!! A boa notícia é que, sim, há cura para o preconceito! Aqui vai um passo a passo do tratamento para a cura de diversos preconceitos, como homofobia, racismo, machismo, intolerância religiosa e outros tantos.

1° Passo: Assumir
Não tente esconder. Seja corajoso para reconhecer o preconceito nos seus atos e palavras. A negação  de uma coisa ruim dentro da gente não faz com que ela suma, mas sim com que cresça enrustida.

2° Passo: Corrigir
Fez piada preconceituosa? Peça desculpas. Discriminou um amigo? Se retrate com ele. Pedir perdão não apaga a ofensa, mas é o primeiro passo para que ela não seja repetida.

3° Passo: Mudar
Se você percebeu que seu discurso é preconceituoso, mude-o. Mude a sua atitude. Cada vez que um pensamento preconceituoso pipocar na sua cabeça como reflexo a alguma coisa, policie-se para não fazer comentários discriminatórios e para mudar sua postura dentro da sua cabeça também. A mudança acontece de dentro pra fora.

4° Passo: Repetir
Preconceito não se cura do dia pra noite. É preciso repetir esse processo uma vez atrás da outra, sempre que necessário. Quanto mais a gente se cura de um preconceito, mais percebe que tem outros… No fundo, somos preconceituosos em recuperação. Assim como os alcoólatras e os viciados em drogas, temos que viver nossa luta contra esse mal dentro de nós um dia de cada vez, sabendo que, a cada preconceito que vencemos, contribuímos para construir um mundo melhor.

O mundo está ficando muito chato… pra quem?

mundo_chato_megafone_gritando

Você aí, que reclama que as pessoas vêem preconceito em tudo, um minuto da sua atenção.

Você diz que o mundo está ficando “muito chato”, e eu te pergunto: chato pra quem?

Porque, para a minha amiga, o mundo é muito chato faz tempo, já que a cor da sua pele faz dela um alvo de discriminação desde que nasceu. É chato cada vez que alguém a chama de “moreninha”, que uma criança negra é confundida com um pedinte e maltratada pela cor da pele (e nada mais), que um estilista coloca palha de aço na cabeça das modelos e chama de “homenagem” ao cabelo negro, que alguém usa a expressão “cabelo ruim” com a maior naturalidade, que um cara na TV pinta a cara de preto e usa uma peruca terrível para fazer humor no papel de uma mulher negra, pobre e feia. Continue lendo

Cabelo ruim, cabelo bom

Cabelo ruim. Tá aí uma expressão que eu abomino.

“Good Hair”, documentário de Chris Brown sobre a “síndrome do cabelo bom” que assola a comunidade negra nos EUA.

Por que raios as pessoas pressupõem (e perpetuam, cada vez que usam a expressão) a idéia de que cabelo crespo/cacheado é ruim e cabelo liso é bom?

Cabelo bom, para mim, é cabelo saudável, bem hidratado, cheiroso, sem pontas duplas. Cabelo ruim é o oposto disso. Liso, crespo, ondulado, cacheado, ralo, volumoso, curto, longo, tanto faz. Todos tem suas particularidades, seus jeitos de ficar lindos e medonhos.

Meu sonho é ter uma filhota de cabelo cacheado. Já fico me imaginando enrolando os dedos nos cachinhos (enquanto ela deixar e não me chamar de chata). Outro dia, quando contei isso, o povo me rechaçou. “Sua filha vai te xingar por ter desejado isso pra ela”.

Pô, gente.

A beleza da vida está na diversidade. Feio é todo mundo ter a mesma cara, o mesmo cabelo, a mesma fala, sem opinião, sem personalidade.

Eu não quero que minha filhota se sinta estranha por ter o cabelo que vier a ter. Não quero que ela viva como uma das moças de Good Hair, que raspam o cabelo e usam peruca, porque simplesmente não suporta ter o cabelo que tem ou, pior, porque ele está destruído pela quantidade absurda de química usada.

Baixo astral demais, gente. Conheci duas amigas africanas, de cabelo crespo, que vivem de bem com suas madeixas, vindas de países em que, suponho, não existe esse preconceito. E elas são lindas, parecem auto-confiantes e seus penteados são demais – do black power ao turbante (outro dia, me ensinaram a fazer turbante, mas ficou ridículo em mim!).

Vamos colaborar prum cenário assim por aqui também? Vamos parar de dividir cabelos, cor da pele, formato do corpo, cor do olho e outras particularidades de cada um entre “bom” e “ruim”? Pra minha filhinha, quando chegar ao mundo, ser feliz do jeito que ela sair!

Vale uma homenagem às minhas crespas e cacheadas favoritas da vida!

Cabelo bom

Lara Januário, Lili Ferrari, MaWá e Thaís Souza, essas lindas!

Bolsonaro, o racista, precisa ser exposto e repudiado

Assisti um trechinho do CQC de ontem mas, pelo alvoroço que vi na timeline do meu Twitter hoje, parece que perdi o momento mais importante.

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), conhecido por ser ultraconservador, defender a ditadura e ser homofóbico, participou de um quadro chamado “O Povo Quer Saber”, em que respondeu a perguntas enviadas por populares e famosos. Aqui vai o vídeo para quem perdeu.

http://www.youtube.com/watch?v=UrLpLXe-q08&feature=player_embedded

Se você não quer nem ouvir a voz desse sujeito, eu resumo. Respondendo a perguntas muito diretas e provocadoras, ele disse que tem saudade da ordem da época da ditadura, disse que torturaria o filho se o pegasse fumando maconha e que não corre o risco de ter um filho gay porque se considera um ótimo pai.

Agora a cereja do bolo desse show de preconceito foi quando respondeu à pergunta da cantora e apresentadora Preta Gil: “Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?“. Sem nem hesitar, Bolsonaro respondeu “Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Caso o caro leitor não lembre bem o que é promiscuidade, Michaelis tá aí pra relembrar. Promíscuo é aquilo que  “1 Que consiste em partes, elementos ou indivíduos heterogêneos reunidos sem ordem. 2 Misturado indiscriminadamente. 3 Caracterizado por, ou que envolve mistura ou associação indiscriminada.” O Aluete mostra o outro sentido de promíscuo: “3. Que envolve elementos reprováveis, desonestos, obscenos, imorais etc. (relações promíscuas)”.

Não conhecêssemos Bolsanaro de outros Carnavais, poderíamos supor que, ao usar a palavra promiscuidade, não quis dizer “reprovável, desonesto, obsceno e imoral”, mas apenas “mistura indiscriminada de indivíduos heterogêneos”.

Em sua Carta aberta a Jair Bolsonaro, o colunista do iG, Fernando Oliveira, questiona se dar espaço e voz a esse tipo de pessoas na TV seria sensacionalismo ou se realmente sucita discussões úteis.

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