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Bela, recatada e do lar: matéria machista da Veja sobre Marcela Temer.

Qual o problema com “bela, recatada e do lar”?

A revista Veja publicou um perfil de Marcela Temer, esposa do vice-presidente do Brasil, Michel Temer, entitulada “Bela, recata e ‘do lar’” (aqui). A internet está em polvorosa e as mulheres estão todas protestando. Afinal, qual é o problema dessa matéria? Continue lendo

Protesto de candidatas ao Miss Bumbum.

De bunda de fora, elas pedem respeito

Saíram por aí umas fotos de candidatas ao Miss Bumbum fazendo um protesto, de biquíni e com cartazes que diziam “Não somos objeto“, “Mereço respeito“, “Minha bunda não te pertence” etc.

Aparentemente, as moças protestavam contra o Femen, e não consigo encontrar na internet uma explicação de qual é o contexto – agradeço se algum leitor que souber puder compartilhar nos comentários (vale lembrar que o Femen Brasil não representa as feministas brasileiras). Mas essa parte do contexto não é o foco do meu post.

O que quero trazer aqui são os comentários relacionados a essas fotos, que refletem esse conceito: gente perguntando como essas moças querem respeito se “se vestem assim”, “se portam como objetos” e por aí vai.

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Um dos comentários deixados nos sites de notícias

Comentário machista sobre protesto das candidatas ao Miss Bumbum.

Aqui um outro.

Quando é que as pessoas aprenderão que mulher não é objeto, seja doutora ou Miss Bumbum, esteja de burca ou pelada, fique com todos, com algumas ou com ninguém??

Essas moças da foto estão de bunda de fora e cobertas de razão: mulher nenhuma é objeto, em nenhum contexto!

Respeito é algo que nós devemos a todos, e não algo que as pessoas devem “fazer por merecer”. Sem valor é a pessoa que não sabe respeitar os outros, que não entende que seu cercadinho termina onde começa o do amiguinho.

Fica a sugestão: vamos cada um cuidar da própria bunda e aceitar que cada um faz o que bem entender com a sua?

Foto daqui.

Tratamento para a cura do preconceito

Broche: "eu sou um preconceituoso em recuperação"

É super constrangedor quando a gente percebe que somos pessoas preconceituosas.

Geralmente, a gente fala algo preconceituoso sem perceber e alguém aponta nosso preconceito. Pode acontecer a qualquer momento: na mesa do bar, quando você soltou uma piadinha “inocente” e ofendeu um amigo, no jantar de Natal quando soltou uma besteira sobre a polêmica da semana e recebeu uma bronca do seu tio, num post que você publicou no seu blog e gerou uma onda de revolta, assistindo um programa de TV em que um entrevistado conta como pessoas exatamente como você transformam a vida dele num inferno.

A vergonha toma conta, a gente começa a querer se justificar, dizer que não teve a intenção, que foi criado assim, quer cavar um buraco no chão pra enfiar a cabeça e torce pra que todo mundo esqueça logo do que aconteceu…

Mas calma!! A boa notícia é que, sim, há cura para o preconceito! Aqui vai um passo a passo do tratamento para a cura de diversos preconceitos, como homofobia, racismo, machismo, intolerância religiosa e outros tantos.

1° Passo: Assumir
Não tente esconder. Seja corajoso para reconhecer o preconceito nos seus atos e palavras. A negação  de uma coisa ruim dentro da gente não faz com que ela suma, mas sim com que cresça enrustida.

2° Passo: Corrigir
Fez piada preconceituosa? Peça desculpas. Discriminou um amigo? Se retrate com ele. Pedir perdão não apaga a ofensa, mas é o primeiro passo para que ela não seja repetida.

3° Passo: Mudar
Se você percebeu que seu discurso é preconceituoso, mude-o. Mude a sua atitude. Cada vez que um pensamento preconceituoso pipocar na sua cabeça como reflexo a alguma coisa, policie-se para não fazer comentários discriminatórios e para mudar sua postura dentro da sua cabeça também. A mudança acontece de dentro pra fora.

4° Passo: Repetir
Preconceito não se cura do dia pra noite. É preciso repetir esse processo uma vez atrás da outra, sempre que necessário. Quanto mais a gente se cura de um preconceito, mais percebe que tem outros… No fundo, somos preconceituosos em recuperação. Assim como os alcoólatras e os viciados em drogas, temos que viver nossa luta contra esse mal dentro de nós um dia de cada vez, sabendo que, a cada preconceito que vencemos, contribuímos para construir um mundo melhor.

Como a violência contra a mulher nasce aí, dentro de você

Marcha das vadias: cartaz que diz "acredite ou não, minha saia curta não tem nada a ver com você"

Marcha das vadias de 2011: cartaz diz “acredite ou não, minha saia curta não tem nada a ver com você”. Foto: Mario Ângelo/ Sigmapress/AE.

A gente vai a um restaurante e percebe que, na mesa ao lado, há uma moça com o que pode ser a menor saia do mundo. Como você reage?

A reação mais comum, acho eu, é fazer um julgamento negativo. Cutucar a pessoa que está com você e dizer, discretamente, “olha que piriguete”, “ela não se dá o respeito”, “isso é roupa que se use em púbico?”.

Essa atitude tão “pessoal”, tão cheia do nosso “direito de achar o que quiser”, é o primeiro passo para o estupro.

Aí você me diz: “mas Cíntia, peraí, não é porque eu acho que a pessoa não deve sair como uma vadia pela rua que sou um estuprador!”. E você está certíssimo (graças a Deus…).

Porém, a violência contra a mulher é como o grande rio que começa numa nascente tímida.

Ela começa na cabeça de cada um de nós quando pensamos que uma mulher deve se vestir e agir de forma recatada para merecer, conquistar ou manter o respeito dos outros.

Se desenvolve quando propagamos essa idéia fazendo comentários negativos, lançando olhares tortos e atribuindo à mulher fora do padrão casto nomes pejorativos (galinha, vadia, vagabunda, dada, puta…). Cada vez que criamos e seguimos regras de conduta repressivas, que dizem que uma mulher não pode transar no primeiro encontro ou que quem usa decote no trabalho está querendo subir na carreira por meios escusos.

Cresce cada vez que uma mulher deixa de agir ou se vestir da forma que quer por medo de ser vista como uma vagabunda. Continue lendo

Abuso no metrô: terrível pras mulheres, engraçado pra Globo, fetiche pra Playboy

Dias atrás, rolou um bafafá por conta do quadro Metrô Brasil, do programa Zorra Total, em que personagens mulheres são assediadas sexualmente no metrô de forma engraçada, como nos trechos abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=rXhsgDIBWkU&feature=player_detailpage#t=485s

O programa faz sucesso e já tem Playboy com ensaio nu com uma das atrizes dentro de um vagão com capa que diz “A passageira mais gostosa do metrô do Zorra Total”. Esta matéria resume: “Nas noites de sábado, a ‘Mulata Difícil’ exibe sua sensualidade por entre os vagões do Metrô do Zorra, deixando não só o Angolano louco, mas também os marmanjos do sofá que imaginavam o que ela poderia esconder. E para aqueles que enchiam os olhos com o charme de Desirée na Globo, poderá se deliciar com as visões das curvas da mulata em casa, que posou em um ensaio realizado numa estação de metrô desativada de São Paulo.”

Playboy metrô Desireé Oliveira

As funcionárias do metrô de São Paulo (representadas pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo) enviaram uma carta de repúdio à Rede Globo, pedindo que “seja tirada do ar a parte que faz alusão ao assédio feminino, como se fosse algo engraçado” (mais nesta matéria), dizendo que o quadro “banaliza o assédio sexual, problema enfrentado com frequência por mulheres que utilizam o transporte público coletivo”.

Elas tiveram o apoio da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (SPM), que disse: “Parabenizamos a iniciativa e endossamos a necessidade de debater e ações como esta, que visam desconstruir discursos de uma cultura que, até mesmo camuflada de humor, perpetua a violência simbólica contra as mulheres“.

Muita gente apareceu falando em censura, exagero, falta de senso de humor.

Tenho pra mim que essa gente não conhece muito bem a realidade das mulheres que usam transporte público. Que nunca foram encoxadas por espertinhos, nem tiveram mãos bobas tentando apalpar sua bunda (preciso reiterar?) contra sua vontade. Alguma mulher que me lê neste momento nunca passou por um constrangimento do tipo no transporte público? Eu, infelizmente, já passei, e mais de uma vez.

Como esta moça desta notícia, que passou mal e sofreu um pequeno desmaio depois de um homem no metrô “retirar o pênis ereto para fora das calças, comprimindo-o contra as nádegas da jovem”. No horário de pico do metrô, no meio do vagão lotado. Nego botou o pinto pra fora e encoxou a fulana, que passou um nervoso tamanho que desmaiou. Alguém aí tá achando engraçado? Alguém tá achando excitante?

E não estamos falando de um homem bronco e ignorante, como as pessoas que nos acusam de exageradas gostam de generalizar. O rapaz do pinto pra fora era um advogado (ou seja, formação superior), bem vestido (diz a reportagem que estava vestindo um terno). E isso tudo depois do pronunciamento das metroviárias e da secretaria, ou seja, quando o assunto com grande visibilidade.

Ninguém aqui está acusando o programa ou a revista de serem os responsáveis pelos abusos a mulheres no metrô, vejam bem. Aliás, o tema só faz parte do programa por ser um problema pra lá de corriqueiro. Só o fato de existirem vagões só para mulheres no metrô do Rio de Janeiro (e parece que em outros estados também) já prova isso.

O que estou tentando destacar aqui é que tanto a Playboy quanto a Globo estão sendo altamente irresponsáveis e prestando um tremendo desserviço às mulheres ao reforçar este comportamento machista, abusivo e dominador, ao alimentar a fantasia dos “marmanjos” ou tratar o problema com deboche, como se não fosse nada sério.

Update: termino o post com o depoimento da moça assediada pelo advoago no metrô: “Só quem já sentiu na pele a humilhação de ter um sujeito se esfregando contra o seu corpo sabe a tristeza que é. Tem gente que acha engraçado, mas eu, se eu pudesse, tirava [o quadro] do ar” (depoimento à Folha).

O decote que incomoda

Decote indecente - LuluzinhaCamp para Gabi Butcher/ Dia Positivo Fotografia Foto: Luluzinhas clicadas por Gabi Butcher | Dia Positivo.

Esses dias li notícias muito semelhantes e curiosas sobre a relação difícil dos homens com os decotes femininos.

Renata Fan, por exemplo, é uma jornalista de mão cheia, entende de futebol e tem um emprego cobiçado por muito repórter esportivo. Mas para seu colega de programa, o ex-jogador Neto, que, corrijam-me se estiver errada, fica muito atrás em termos de educação acadêmica e talento para jornalismo televisivo, Fan não passa de uma mulher bonita e gostosa.

Neto constrangeu Fan esses dias pedindo que moça “levantasse o decote”, por que ele estaria “desconcertado”. E não é a primeira vez que o engraçadinho abre a boca pra “elogiar” (tá mais para “assediar”) a jornalista. Outro dia, soltou a pérola “Se eu revelasse meus pensamentos, você estaria pelada”. Finesse, não?

Achei curioso que, no mesmo dia, estava em destaque na home do UOL a notícia de que o Parlamento canadense, incomodado com o decote da deputada Rathika Sitsabaiesan na foto oficial que aparece na área de deputados do site oficial do Parlamento, “photoshopou” a foto e escondeu o decote (apagando a linha que separa os seios e “subindo” a gola da blusa).

Decote de Rathika Sitsabaiesan sofreu photoshopada conservadora

Nunca tinha ouvido falar da moça, mas, fuçando o verbete sobre Rathika na Wikipedia, descobri que é a primeira mulher não-branca em sua posição e também a primeira representante da sua etnia (tamil, que eu também não conhecia) no Parlamento, além de ser a mais nova (29 anos).

Puta papel importante dona Sitsabaiesan está desempenhando. Mas os seios da moça incomodam o parlamento, que acha que não é adequado uma pessoa na posição dela deixar aparecer quatro dedos de “entrepeitos”.

Nos dois casos, a mensagem é a mesma: seios são símbolo sexual e não são compatíveis com situações sérias.

Enquanto um homem pode andar de peito nu em um parque, num dia de calor, espera-se que a mulher dê um jeito de esconder os seios quando está amamentando em público. E mesmo enquanto ela está totalmente vestida, seu decote deve ser controlado, para não “desviar” a atenção dos homens sérios à nossa volta, que são fisiologicamente incapazes de controlar o desejo sexual que é despertado.

Isso me lembra uma discussão levantada em um Outubro Rosa, durante as ações de conscientização contra o câncer de mama sobre o papel dos nossos seios, e destaco um trecho do post da Sam Shiraishi a respeito: “Ainda tem muita mulher que vê os próprios seios como atrativo para o homem, inveja para as mulheres ou simplesmente o alimento do filho. Fora destes contextos, é de ninguém”.

Me incomoda muito o fato de que os homens envolvidos nos dois casos, de Fan e Sitsabaiesan, acharem que pedaços de seios à mostra em inocentes decotes sejam uma provocação.

O que incomoda, de fato: a idéia de que o homem seja fisioligicamente incapaz de domar seus próprios instintos sexuais quando vêem um par de peitos  ou o fato de uma mulher, simbolizada nesta parte tão única e feminina que é o seio, estar ocupando um lugar que nada tem a ver com sexo ou maternidade?