Arquivo da tag: igreja

Porque você, cristão sério, deveria ouvir o que os cristãos gays tem a dizer

Igreja inclusiva: um refúgio para os cristãos gays. Foto: NickShindoStreet.

Foto: Nick Shindo Street.

Estava aqui preparando um post para contar como posso eu, como cristã (convertida, praticante, temente a Deus, criada na igreja batista e bem educada em relação à Bíblia), defender a homossexualidade e homoafetividade dentro da igreja, quando li a notícia de que a Igreja Cristã Contemporânea abriu uma sede em São Paulo e lotou o templo no culto de inauguração (é a primeira igreja evangélica gay friendly de São Paulo).

Meus amigos postaram e comentaram a notícia chocados e tristes.

Pois usarei este gancho para lhe pedir que reveja seus conceitos, querido leitor cristão.

Existe algo chamado “teologia inclusiva“, que é uma vertente de estudos que, entre outras coisas, defende que a Bíblia não condena a homossexualidade, e que os versículos que o fazem foram, na verdade, traduzidos de forma equivocada das escrituras sagradas (tem muitas informações sobre a teologia inclusiva neste blog, escrito por um teólogo e pastor, e leva a reflexão pra muito além do “eu acho”).

Antes de gritar “heresia!”, de mandar “amarrar em nome de Jesus”, de dizer que é coisa do demônio e de apedrejar, eu rogo que você ouça o que eles têm a dizer…  Continue lendo

Ei, pastor, não me diga em quem votar

Houve um tempo em que o pastor da minha igreja (batista, num nível intermediário entre as tradicionalíssimas e as reformadas da categoria) enxotava a bibliadas qualquer um que ameaçasse fazer campanha política num raio de 500 metros do templo. Nada de santinhos na saída e muito menos comício em cima do altar. O candidato podia ser membro fundador da igreja que nada feito.

Tenho saudade desses tempos.

Hoje, tem mais disso não. Vejo líderes protestantes usarem o púpito (físico ou virtual) pra tomar partido nessas eleições pra presidente. Partido e anti-partido, também. Tá um tal de postar panfleto no Facebook e falar “Votem nele” ou “Não votem nela” como se fala “Vamos orar por isso ou aquilo”.

Aí, o que acontece?

Uma associação entre candidatos e propostas com valores, bons ou ruins, que leva ao que o Manifesto Evangélico por um Processo Eleitoral Etico chama de demonização de candidatos e partidos. Como nesse videozinho homofóbico e sensasionalista, em que um pastor que nunca vi mais gordo usa meia dúzia de argumentos infundados e rasos pra dizer que um partido é anti-cristão. Ou então em boatos que circulam por e-mail acusando fulano de satanista.

Dentro da igreja, o que o pastor fala tem status de verdade. A gente aprende que não deve acreditar em tudo que se fala no culto sem antes analisar, mas, na prática, não é fácil discordar do pastor. Nem publicamente nem dentro da gente. Afinal, estamos falando do mestre do rebanho, do seu guia espiritual. Tem um dilema moral aí.

Mas não é só por isso me preocupa esse militantismo religioso.

Parece que as pessoas se esquecem que o Estado é laico. Não gosto nada da idéia de políticos “religiosos”, daqueles que defendem os interesses das igrejas. Isso é terrível! É uma brecha para cercear os direitos daqueles que discordam das nossas crenças. É uma brecha para o autoritarismo em nome de Deus. É uma brecha para o retrocesso ao conservadorismo.

Vide sobre o que giraram as polemiquinhas pré-eleição ultimamente. Problemas sociais? Nope. Quem é a favor do aborto e quem não. Quem é a favor do casamento gay e quem não. Claro que nenhuma dessas questões está sendo analisada a fundo. O ponto aqui é: nós, cristãos, devemos achar isso certo e aquilo errado, portanto, devemos votar em quem acha isso certo e aquilo errado.

Concordo que pastor, como todo cidadão, tem que ter liberdade de expressão. Mas eles sabem mais que ninguém o poder de suas palavras perante as comunidades que dirigem e sabem que tem um compromisso diante de Deus de usar esse poder com responsabilidade, pra liderar os fiéis em questões espirituais e não em questões políticas. Eles sabem bem a diferença entre expressar opiniões pessoais e influenciar a opinião de seu rebanho.

Ainda bem que ainda encontro uns e outros pastores que puxam a orelha dos colegas pra apaziguar minha desesperança na igreja.

Você pode achar que, pela minha orientação política vermelhinha, esse texto é enviezado. Evidente que se essa pastorada tivesse fazendo campanha em favor da minha candidata, talvez não me incomodasse tanto.

Mas o ponto não é o quanto estou incomodada. É o quanto a igreja não está.

Vai melhorar

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pYLs4NCgvNU&hl=pt_BR&feature=player_embedded&version=3]

(versão com tradução aqui)

Esse vídeo (via Gizmodo) me lembrou aquela cena de Milk – a voz da igualdade em que um adolescente liga pro protagonista e diz que está pensando em se matar, porque sua família quer interná-lo em um hospício por ser gay e ele não pode sequer fugir, porque é paraplégico. De rasgar o coração.

Dedico esse vídeo a todos meus amigos da igreja que são gays, assumidos ou não, e sofrem dentro e fora de casa. Vai melhorar.