Arquivos da categoria: Preconceito

Gay pride flag with a heart.

Feliz Mês do Orgulho LGBTQIA

Estamos no mês do Orgulho “Gay” (já explico essas aspas aí).

Vejo gente torcendo o nariz e questionando o porquê do termo “orgulho”. O que tem pra se orgulhar em relação à orientação sexual ou identidade de gênero? Por que se fala em orgulho gay como algo positivo e em orgulho hétero como algo negativo?

Pois bem, acordei com vontade de falar do assunto. Continue lendo

Bela

A beleza está por todos os lados. Ela não tem tamanho único e não precisa seguir regras ou se encaixar em padrões pra existir. O belo não precisa de consenso pra ser belo, que dirá do meu reconhecimento de que é belo…

Pra mim, é um exercício diário essa coisa de Continue lendo

Lulu, o aplicativo que avalia homens.

Lulu, um app de jerico

E o assunto da semana na minha timeline foi o Lulu, o tal do aplicativo pra celular em que as mulheres avaliam homens com quem ficaram, dando notas e atribuindo hashtags que o descrevam.

Não cheguei a ver o app (não encontrei pra baixar, pode ser por restrições de país), mas vi umas matérias com imagens de como é. Rapazes tem perfis criados sem saber (por uma brecha na política de privacidade do Facebook), com foto e nome completo, a média das notas recebidas e hashtags que descrevem a performance sexual do cara, o tamanho do documento, traços da personalidade e por aí vai.

Quase como um caderno de crítica gastronômica, só que com homens no lugar da comida. E como vocês bem podem imaginar, o negócio muitas vezes tem mais críticas negativas que avaliações positivas

Como sou uma blogueira feminista, me sinto compelida a registrar aqui a minha opinião: acho o Lulu um aplicativo totalmente desrespeitoso e, pardon my French, escroto.

Não vejo a menor graça nessa objetificação de gente, seja homem ou mulher.

É o fim da picada sair espalhando publicamente o que aconteceu entre quatro paredes num momento de confiança mútua (como eu  já falei no post sobre fotos íntimas que “caem na net”). É de uma falta de respeito sem fim, em especial, espalhar coisas negativas e ofensivas, com o puro objetivo de humilhar, uma coisa motivada por um sentimento de vingança de uma relação ruim, sob o disfarce de “alerta de cilada” para outras moças…

Tirando a idéia de jerico do ponto de vista jurídico que é usar foto e nome completo de terceiros sem autorização, ainda mais pra difamar.

Muitas amigas estavam dizendo que, por conta desse app, agora os caras estão sentindo na pele o que a gente sofre com o machismo, com as cantadas na rua, com os rapazes que “dão nota” pra gente na praia, que fazem comentários sobre a nossa bunda. É verdade, eles estão sentindo, talvez pela primeira vez, insegurança, medo, humilhação, sentimento de invasão – tudo aquilo que a gente sente quando é publicamente avaliada pela nossa aparência. Mas essa semelhança só reforça o quão errado e escroto esse Lulu é. Ele é tudo que nós detestamos. Não quero pra mim, não quero pra você.

Esse app seria perfeito se fosse um fake, uma ação de guerrilha para chamar a atenção para a objetificação da mulher. Mas infelizmente, não é.

Só de imaginar como eu me sentiria de ter meu nome e foto associados a comentários sobre meu corpo, às opiniões de gente com quem me relacionei, já me bate um mal-estar. Que horror!

E o pior: é o tipo de tiro pela culatra que vai é estourar pro lado mais fraco. Logo mais, bomba algum app que é o mesmo, só que com homens avaliando as mulheres. Tudo o que muitos caras já fazem vai começar a ser feito de maneira mais aberta e assumida, “já que elas é que começaram”.

Enfim, não vejo nenhum lado positivo aí…

Parece que já começaram a aparecer processos jurídicos contra o aplicativo. Acho é bom. Quero mais é que quem criou esse troço tome tanto processo que pense duas vezes antes de incentivar o julgamento público e a humilhação dos outros.

Bom, não posso falar no nome de todas, mas fica aqui registrado que pelo menos esta feminista aqui acha esse Lulu um app de jerico.

PS: se você encontrou um perfil seu por lá e quiser deletar, aqui vai o link.

Foto: divulgação (sim, amigos, os criadores desse troço tem coragem de soltar “fotos de divulgação”…).

Ator Kaiky Gonzaga e seu cabelo black power na novela Amor à Vida de Walcyr Carrasco.

Dia da Consciência Negra: o racismo velado em números e links

Hoje é celebrado o Dia da Consciência Negra. O feriado é recente – entrou em vigor em 2003, quando a lei 10.639 de 9 de janeiro daquele ano incluiu no currículo oficial da Rede de Ensino “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”.

Se você é uma dessas pessoas que postou algo no Facebook do tipo “no dia em que a gente parar de se preocupar com a consciência negra ou branca e se preocupar com a consciência humana, aí sim acaba o preconceito”, gostaria de ser a primeira a te dizer que você está redondamente enganado. Ignorar o racismo não vai, jamais, acabar com ele.

Tem gente que diz que não tem necessidade, que o maior preconceituoso é o próprio negro, que ficar falando sobre isso é exatamente o que causa essa segregação entre negros e brancos.

Mas a verdade é que não é preciso ser nenhum cientista social para olhar em volta e ver que faltam negros nos empregos qualificados e em posições de liderança nas empresas, nas boas escolas primárias, nas faculdades, nos bairros “nobres”, enquanto eles são a grande maioria nos transportes públicos lotados, nos empregos com menor salário, nas favelas, nas prisões, nos necrotérios das periferias.

Ainda que metade da população brasileira seja negra ou parda (dados de 2012), não há negros nas capas das revistas – das de beleza às de bebês, com exceção as publicações com temática especificamente negra. Os comerciais de TV não mostram negros como modelo de beleza nem dirigindo carrões, mas os colocam bastante no papel de criminosos. As passarelas das nossas fashion weeks tupiniquins não tem nem 10% de negros nem negras, mas tem modelos de bombril no cabelo para “homenagear a beleza negra”.

As pessoas ainda associam crianças negras em lojas caras a pedintes e chamam de “mal entendido”, ainda acham que não tem problema chamar cabelo crespo de “cabelo ruim“, mandam cortar o black power do menino negro da novela porque, depois que foi adotado por um casal (branco) e rico, o cabelo crespo ao natural “não combina”.

Datas de afirmação, como o 20 de novembro, tem como objetivo trazer o assunto à tona, revelar o preconceito velado, gerar discussões sobre como combater o problema e promover o fortalecimento da autoestima do grupo discriminado.

Então, meus caros, dizer que o Dia da Consciência Negra é desnecessário é feio, muito feio, e ignorante também.

Ainda mais quando você é como eu: uma pessoa branca, que nunca teve um apelido racista na escola, que jamais sofreu nenhuma dificuldade por conta da cor da pele na hora de procurar um emprego, que nunca teve dificuldade em encontrar padrões de beleza nos quais se espelhar na TV e nas bancas, que não sabe o que é tomar batida policial a troco de nada, por ter cara “suspeita”. Alguém que não tem a menor idéia do que é precisar de um feriado nacional para que o assunto seja notícia e gere discussões.

O que a gente deve fazer nesse dia é assumir que existe um problema chamado racismo, que ainda há muito que caminhar para alcançar a igualdade racial no Brasil, de refletir sobre nossa participação nesse problema (por mais que a gente jure que não seja racista, a verdade é que somos preconceituosos em recuperação), pensar sobre como podemos combatê-lo. É dia de a gente questionar as marcas, as revistas, as novelas e exigir que os negros não sejam colocados de lado quando falamos em modelos de beleza e de sucesso. De perceber em quais ações do dia a dia a gente ajuda o racismo a crescer, seja discriminando pessoas negras ou dizendo isso tudo é coisa da cabeça delas, que estão exagerando e que o mundo está ficando muito chato.

Aqui vão alguns fatos interessantes que descobri pesquisando para este post, que podem enriquecer a conversa:

Revistas e blogs
– A revista Pais e Filhos não teve absolutamente nenhuma criança negra na capa da revista em 3 anos, em nenhuma das suas 35 edições que publicou entre janeiro de 2011 a novembro de 2013 (segundo a seção “edições anteriores da Revista Pais e Filhos” de seu site). Sua concorrente, a revista Crescer, teve uma única capa com um bebê negro em 19 edições.

Nos últimos 8 anos, a Revista Nova publicou apenas 4 capas com mulheres negras (4,2% das 95 capas publicadas de janeiro de 2006 a novembro de 2013, veja todas as edições de Nova deste período e confira).

– A Boa Forma, referência em corpos “perfeitos”, teve 1 única capa com mulher negra em 3 anos (menos de 3% das 37 edições publicadas entre janeiro de 2011 e novembro de 2013, conforme histórico disponível de capas.

Nenhuma blogueira negra integra a lista de blogs da F*Hits, uma das redes que somam a maior parte da audiência de (e do investimento publicitário em) blogs de moda e beleza do Brasil.

Nas passarelas e vitrines
– São raros os negros nas semanas de moda mais importantes do Brasil. Neste ano, a situação crítica levou a Defensoria Pública a criar uma cota de um mínimo de 10% de modelos negros e indígeneas nos desfiles Rio Fashion Week.

– Já no paulistano SPFW, foi dado um passo para trás: as cotas, criadas em 2009, foram desfeitas em 2012, porque “dava muito trabalho” para a organização enviar à defensoria evidências de quantos modelos negros participaram. Na época, o UOL fez um levantamento da quantidade de negros nas passarelas – números tão pífios pelo tamanho do evento que chega a ser uma vergonha.

Não se vê tampouco homens e mulheres negros nos sites e materiais publicitários de marcas consideradas brasileiríssimas, como as carioca Farm e Osklen.