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Os cristãos, a ditadura gay e o que fazer

Amigo cristão,

Escrevo para você por conta desse tal vídeo do Boticário de Dia dos Namorados que mostra casais gays, e pelas pessoas que estão convocando os cristãos a criticarem o vídeo publicamente e a fazer um boicote à marca.

Eu te convido deixar os gays em paz.

Primeiro porque Continue lendo

As feministas que dizem “não” à intolerância religiosa

Intolerância religiosa na Marcha das Vadias. No último sábado, os caminhos das feministas da Marcha das Vadias e dos peregrinos católicos da Jornada Mundial da Juventude se cruzaram no Rio de Janeiro.

Parte da pauta da manifestação do primeiro grupo é o Estado laico e uma parcela infeliz das manifestantes achou que uma boa forma de se manifestar a respeito seria quebrando estátuas de Nossa Senhora e usando cruzes como objetos sexuais, sob os olhares escandalizados do segundo grupo.

Os dogmas da igreja católica são opressores? Sim, super, especialmente em relação à sua sexualidade e aos direitos reprodutivos das mulheres. Combinados com a política, então…

Mas desrespeitar símbolos religiosos sagrados para alguns, ainda que não signifiquem nada para você, é uma forma estúpida de protestar.

É o tipo de protesto que perpetua ódio, violência e intolerância – exatamente aquilo que o movimento feminista combate há tantos anos.

O que aconteceu ontem na Marcha das Vadias foi um grande erro.

Seios nus, um símbolo de uma mensagem de liberdade e tolerância em relação aos nossos corpos, agora circulam pela mídia (e se instalam no imaginário das pessoas) associados a mulheres com o rosto coberto com camisetas, como fazem os bandidos, quebrando tudo.

Uma pena…

Este é um post de repúdio. Não desfaz o que estas pessoas fizeram, não apaga as imagens vergonhosas dos jornais (e certamente não vai repercutir tanto quanto elas), não reverte a ofensa.

Mas, pelo menos, deixa registrado que estas pessoas não nos representam, estas imagens não nos retratam e nos repudiamos estes atos e quaisquer forma de violência, ódio e intolerância.

Claro que não posso falar por todas as feministas. Uma das características deste movimento é ser horizontal. Mas o feminismo é um movimento inclusivo, para católicas e atéias, para mulheres e homens, para todos que acreditam que as mulheres não devem ser subjugadas nem subtraídas de seus direitos por serem mulheres.

E eu, como uma pessoa de fé (ainda que não seja a fé católica), precisei deixar registrada aqui a voz do feminismo que diz “não” à intolerância religiosa.

Foto: daqui.

Update: Fica também uma recomendações de leitura de outra feministas e seu olhar sobre o ocorrido: Os santos que tem nos quebrado, de Bárbara Araújo no Blogueiras Feministas, de onde destaco um trecho: “Se podemos retirar da performance que foi acusada de intolerância religiosa (com razão, creio) alguma serventia, acredito que deva ser a percepção da seletividade das coisas consideradas como inaceitáveis pela nossa sociedade” (sobre como nos escandalizamos tão facilmente com quebra de santos e, em contrapartida, achamos normal quando uma prefeita cristã manda fechar um terreiro de umbanda sem mais nem menos).

Porque você, cristão sério, deveria ouvir o que os cristãos gays tem a dizer

Igreja inclusiva: um refúgio para os cristãos gays. Foto: NickShindoStreet.

Foto: Nick Shindo Street.

Estava aqui preparando um post para contar como posso eu, como cristã (convertida, praticante, temente a Deus, criada na igreja batista e bem educada em relação à Bíblia), defender a homossexualidade e homoafetividade dentro da igreja, quando li a notícia de que a Igreja Cristã Contemporânea abriu uma sede em São Paulo e lotou o templo no culto de inauguração (é a primeira igreja evangélica gay friendly de São Paulo).

Meus amigos postaram e comentaram a notícia chocados e tristes.

Pois usarei este gancho para lhe pedir que reveja seus conceitos, querido leitor cristão.

Existe algo chamado “teologia inclusiva“, que é uma vertente de estudos que, entre outras coisas, defende que a Bíblia não condena a homossexualidade, e que os versículos que o fazem foram, na verdade, traduzidos de forma equivocada das escrituras sagradas (tem muitas informações sobre a teologia inclusiva neste blog, escrito por um teólogo e pastor, e leva a reflexão pra muito além do “eu acho”).

Antes de gritar “heresia!”, de mandar “amarrar em nome de Jesus”, de dizer que é coisa do demônio e de apedrejar, eu rogo que você ouça o que eles têm a dizer…  Continue lendo

Ei, pastor, não me diga em quem votar

Houve um tempo em que o pastor da minha igreja (batista, num nível intermediário entre as tradicionalíssimas e as reformadas da categoria) enxotava a bibliadas qualquer um que ameaçasse fazer campanha política num raio de 500 metros do templo. Nada de santinhos na saída e muito menos comício em cima do altar. O candidato podia ser membro fundador da igreja que nada feito.

Tenho saudade desses tempos.

Hoje, tem mais disso não. Vejo líderes protestantes usarem o púpito (físico ou virtual) pra tomar partido nessas eleições pra presidente. Partido e anti-partido, também. Tá um tal de postar panfleto no Facebook e falar “Votem nele” ou “Não votem nela” como se fala “Vamos orar por isso ou aquilo”.

Aí, o que acontece?

Uma associação entre candidatos e propostas com valores, bons ou ruins, que leva ao que o Manifesto Evangélico por um Processo Eleitoral Etico chama de demonização de candidatos e partidos. Como nesse videozinho homofóbico e sensasionalista, em que um pastor que nunca vi mais gordo usa meia dúzia de argumentos infundados e rasos pra dizer que um partido é anti-cristão. Ou então em boatos que circulam por e-mail acusando fulano de satanista.

Dentro da igreja, o que o pastor fala tem status de verdade. A gente aprende que não deve acreditar em tudo que se fala no culto sem antes analisar, mas, na prática, não é fácil discordar do pastor. Nem publicamente nem dentro da gente. Afinal, estamos falando do mestre do rebanho, do seu guia espiritual. Tem um dilema moral aí.

Mas não é só por isso me preocupa esse militantismo religioso.

Parece que as pessoas se esquecem que o Estado é laico. Não gosto nada da idéia de políticos “religiosos”, daqueles que defendem os interesses das igrejas. Isso é terrível! É uma brecha para cercear os direitos daqueles que discordam das nossas crenças. É uma brecha para o autoritarismo em nome de Deus. É uma brecha para o retrocesso ao conservadorismo.

Vide sobre o que giraram as polemiquinhas pré-eleição ultimamente. Problemas sociais? Nope. Quem é a favor do aborto e quem não. Quem é a favor do casamento gay e quem não. Claro que nenhuma dessas questões está sendo analisada a fundo. O ponto aqui é: nós, cristãos, devemos achar isso certo e aquilo errado, portanto, devemos votar em quem acha isso certo e aquilo errado.

Concordo que pastor, como todo cidadão, tem que ter liberdade de expressão. Mas eles sabem mais que ninguém o poder de suas palavras perante as comunidades que dirigem e sabem que tem um compromisso diante de Deus de usar esse poder com responsabilidade, pra liderar os fiéis em questões espirituais e não em questões políticas. Eles sabem bem a diferença entre expressar opiniões pessoais e influenciar a opinião de seu rebanho.

Ainda bem que ainda encontro uns e outros pastores que puxam a orelha dos colegas pra apaziguar minha desesperança na igreja.

Você pode achar que, pela minha orientação política vermelhinha, esse texto é enviezado. Evidente que se essa pastorada tivesse fazendo campanha em favor da minha candidata, talvez não me incomodasse tanto.

Mas o ponto não é o quanto estou incomodada. É o quanto a igreja não está.