Shadow woman. Photo: amylovesyah @ Flickr.

As Mulheres Que Não Existem

Existem certos estereótipos de mulheres sobre os quais ouve-se falar desde criança. Elas são como lendas, figuras mitológicas da modernidade, criadas e reproduzidas na cultura machista para tentar encaixar mulheres em papéis pré-definidos. Aprende-se a buscar ou evitar ser e encontrar essas mulheres que, apesar de não existirem, prendem e limitam as mulheres da vida real. Confira algumas das Mulheres Que Não Existem e liberte-se delas.

A Destruidora De Lares

Maior medo das mulheres de bem que estão em um relacionamento sério, “A Destruidora de Lares” é uma mulher sem escrúpulos, vulgar, que seduz o homem das outras sem nunca pensar em como está destruindo famílias para satisfazer seus desejos pérfidos. É uma mulher de quem as outras tem é dó, essazinha não consegue achar um homem pra ela porque ela não presta, e é por isso que vai caçar homem comprometido. Vale nada. Quando o homem deixa esposa e filhos pra ficar com ela, então, aí é que ninguém perdoa. Ela vira o pivô da separação e vai ser pra sempre “A Destruidora de Lares”.

Infelizmente para quem adora soluções simples, ela não existe. Foi uma figura criada e demonizada para desviar a atenção dos Homens Destruidores de Lares, rapazes comprometidos que escolhem trair por livre arbítrio. Homens que mentem, enganam, fazem a esposa se sentir uma louca por estar desconfiando deles. Chegam em casa, depois de comer outra, olham nos olhos da esposa e juram que ela é única e que nunca fariam uma coisa dessas. E que, depois de pegos no pulo e constrangidos, costumam tentar virar a mesa e colocar a culpa na mulher traída, dizendo que ela que não se manteve atraente o suficiente, ou que não deu atenção suficiente a ele, ou que não anda satisfazendo os desejos sexuais dele, causando, ela própria, a necessidade de ele ir procurar na rua o que não tem em casa. A “outra”, aliás, muitas vezes nem sabe que é “outra”, já que os traidores adoram mentir pra todo mundo envolvido. No fim, vira uma briga entre “a oficial” e “a outra”, e o protagonista da merda toda, o traidor, sai de fininho, espera a poeira baixar e sai ileso. Típica pegadinha machista.

A Galinha

Essa a gente ouve falar bem cedo, naquela época em que todo mundo começa a dar o primeiro beijo. A maioria das meninas acha mó legal beijar, mas todas morremos de medo de virar a temida “Galinha”. Também chamada de Vadia, Vagabunda, Mulher Rodada e Puta, é aquela menina que não se dá o respeito e sai ficando com todo mundo que dá vontade. Ela já ficou com metade da turma do colégio antes de chegar no ensino médio. Começa a transar cedo e dá pra qualquer um. Uma vez vadia, pra sempre vadia. Não é mulher pra casar. Se algum amigo nosso se apaixona por ela, a gente logo levanta a bandeira: cuidado, ela não presta.

O fator complicador é que ninguém sabe, exatamente, nos explicar qual é o limite de parceiros para que a gente não seja considerada vadia. Daí, a opção mais segura, geralmente, é ficar com o menor número de homens possível… Enquanto que os homens podem ter quantas parceiras der na telha ao longo da vida (ou de uma noite, ou dentro do mesmo grupo) sem sofrer problema algum por isso, a gente sabe que “é diferente”. Quem nunca ouviu a infame pergunta: com quantos caras você ficou?

Um dia, a gente descobre que esse número (qualquer que seja) sempre vai ser maior do que deveria na cabeça de alguns para sermos consideradas mulheres sérias. Daí, a gente, que sempre tentou não ser rodada, vira rodada aos olhos de alguém, mesmo tendo deixado de pegar uns e outros que teve vontade pra evitar essa fama. E é nesse dia que a gente percebe: “A Galinha” é só uma mulher igual a nós, que alguém um dia achou que ficou com mais caras que devia (que pode ser mais ou menos que a gente, já que não depende do número, mas sim do olhar inquisidor do outro). O grande problema não tá no comportamento dela (nem no seu), mas na maneira como as pessoas acham ok julgar alguém pela sua vida sexual.

A Santa

“A Santa” é a mãe, avó, filha ou irmã de um cara, aquelas mulheres imaculadas cuja honra os homens se sentem na obrigação de defender. É o contrário da Vadia. Em geral, A Santa também aguenta muita coisa nessa vida sem reclamar, não se relacionam apaixonadamente com ninguém, são “prestativas” e “não dão trabalho”. Ai daquele que insinuar que A Santa tem alguma vida sexual, ou faz alguma coisa “errada” nessa vida.

“A Santa”, adivinhem?, não existe fora do imaginário do macho. Reparou que eles sempre santificam uma mulher em detrimento das outras? Além disso, ignoram boa parte daquilo que faz delas um ser humano para transformá-las numa figura mitológica impossível de ser reproduzida. O objetivo é mostrar às outras um modelo de como elas devem ser se quiserem ser respeitadas por um homem (como se algum ser humano precisasse fazer por merecer o respeito de outro). É por isso se ouve tanto “mas ela não é nenhuma santa” daqueles que tentam justificar desrespeito a uma mulher.

A Super Mulher

Quantos cartões de Dia das Mulheres já vimos por aí exaltando “A Super Mulher“? Ela é mãe, esposa, amante, profissional, dona de casa e dá conta de tudo com maestria e ainda se cuida e está sempre bela! Cá entre nós, ela é “dama na rua e puta na cama”.

Que coisa linda, não? Pena que esse elogio, no fim, é uma cobrança. E não tem que dê conta de todos os aspectos da sua vida de maneira mega dedicada e eficiente, e que consiga manter a sanidade mental. Ainda mais quando os homens envolvidos – maridos e pais das crianças, por exemplo – sabem que podem cobrar isso tudo dela e que qualquer contribuição deles na na gestão da casa, criação das crianças e relacionamento vai ser vista como um “plus” e não obrigação. Fica confortável pra eles, não?

“A Super Mulher” não existe. O que existe são mulheres que dão tudo de si para cuidar de tudo que importa na sua vida, carregando nas costas o fardo de uma responsabilidade que deveria ser dividida e não é. Mulheres que estão sempre se sentindo devendo em algum aspecto, sempre carregando o peso da culpa de não conseguir ser suficiente. Tem as que acham que dão pouca atenção pros filhos, as frustradas com a carreira que ficou em segundo plano, as que não conseguem manter o peso dos vinte anos e acham que é por isso que o marido anda desinteressado (ainda que ele tenha cultivado aquela pança de churrasco com chope e sempre ria quando dizem que engordou, emendando “casar engorda!”). Mulheres sobrecarregadas sendo exploradas por aqueles que as “elogiam” com esses cartões merda uma vez por ano.

A Mal-Comida

É aquela mulher mal-amada, mal comida, uma vaca, que só quer foder a vida dos outros outros. Afinal, que outra explicação pode existir para uma mulher que complica a sua vida? Só pode ser falta de rola!

“A Mal-Comida” não existe. Existem pessoas difíceis, exigentes, que sacaneiam com a gente, seja de forma justa ou completamente injusta, e isso independe da frequência ou qualidade do sexo na vida da pessoa. Ser uma pessoa escrota independe de gênero. Ter o hábito de descontar suas frustrações nos outros também. Sexo (ou a falta dele) não muda nada disso). Mas que prepotência masculina achar que tem entre as pernas o grande bastão corretor de humor feminino (ainda mais quando eles não sabem nem como usá-lo para, de fato, dar prazer a uma mulher). Pare de associar o humor ou caráter da mulher à sua vida sexual. Isso reduz as mulheres. Somos muito mais que isso!

A Feminazi

Uma mistura de “feminista” com “nazista”, é a feminista radical chata, que fica de mimimi, que vê machisto em tudo. É um combo de todas as coisas ruins que uma mulher pode ser: chata, feia, mal-comida, recalcada e peluda.

“A Feminazi” também não existe. Primeiro, porque as pautas do movimento feminista e do nazismo são completamente opostas. É uma associação grotesca e surreal, que só é feita para chocar e ofender. Segundo, porque reclamar de opressão machista não é ser chata. Chato é ganhar menos que os homens, ser assediada na rua, morrer de medo ao andar sozinha à noite, sofrer violência doméstica. Tem dias em que a gente fala de feminismo de maneira fofa e didática e dia em que o tom é agressivo, nervoso e à altura das merdas machistas que enfrentamos – até porque, mulher não tem nenhuma obrigação de ser fofa, calma e delicada. Mas cuidado com quem chama mulher de feminazi. Quem se incomoda com que pede igualdade é desinformado ou mal-intencionado.

Pois bem.

Estas são algumas das Mulheres Que Não Existem. Desconstruir esses mitos é importante para que cada uma de nós viva com mais liberdade, da forma que achar melhor. Vamos nos libertar desses estereótipos?

Foto: Shadow woman (Amy Loves Yah, no Flickr).

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